Capítulo 04
No exato momento em que Lu XingCi retornou, a cabeça de Duan JiaYan pareceu derreter em confusão.
Antes, quando a outra pessoa saíra, a sensação de vertigem que o atormentava havia diminuído consideravelmente. Mas assim que Lu XingCi atravessou a porta novamente, algo dentro de Duan JiaYan acionou como um interruptor — e, sem que pudesse evitar, sentiu um impulso irresistível de se aproximar dele.
Veio à sua mente a lembrança de Song Yi, que certa vez lhe dissera, com ar melancólico, que bastava olhar para Lu XingCi para sentir uma atração magnética, quase física, em direção ao outro. Na época, Duan JiaYan apenas rira, zombando da suposta falta de autocontrole do amigo.
Como estava errado. Terrivelmente errado.
A sensação de perder o controle de si mesmo era desagradável, quase repulsiva. Por isso, Duan JiaYan pegou os bloqueadores de feromônios das mãos de Lu XingCi e, depois de uma breve hesitação, murmurou um “obrigado” rápido e quase inaudível.
O objeto em suas mãos parecia um frasco de spray — ele já tinha visto Song Yi usar algo similar antes. Mirou o bico para o próprio pescoço e pressionou algumas vezes. Como não conseguia sentir o próprio cheiro, precisava da ajuda de Lu XingCi para confirmar.
— Ainda dá para sentir algo?
O odor ômega fora completamente encoberto pelos bloqueadores, que, curiosamente, tinham um aroma doce de leite — a marca preferida de Song Yi. Lu XingCi observou-o atentamente e respondeu:
— Já sumiu.
Mas como ele permanecia a uma distância considerável, Duan JiaYan não se sentiu totalmente aliviado.
Os bloqueadores pareciam conter algum composto calmante. Depois de usar quase metade do frasco, finalmente a tontura desapareceu, e ele se sentiu revigorado, com a mente clara novamente.
— Você está tão longe — Duan JiaYan abaixou a gola do uniforme, expondo as glândulas no pescoço. — O que está tentando cheirar daí? Por que não vem mais perto?
Lu XingCi continuou a encará-lo em silêncio, sem se mover.
Duan JiaYan acabara de apresentar-se como Ômega e, por ignorância, não compreendia o peso de seus atos. Mas Lu XingCi sabia muito bem: quando um Ômega convida um Alfa para cheirar suas glândulas, isso é interpretado, no mundo deles, como um convite nada sutil.
— Não há cheiro — repetiu Lu XingCi, firme.
Vendo-o tão certo de sua resposta, Duan JiaYan decidiu não insistir. Ajeitou o uniforme e saiu do banheiro.
O corredor estava vazio. Ele consultou o celular — as aulas estavam quase no fim. Precisava urgentemente entender o que estava acontecendo com seu corpo, então devolveu o bloqueador às mãos de Lu XingCi.
— Vou ao hospital. Devolve isso para o Song Yi — instruiu. — Reconheço de longe: é dele. Sempre usa bloqueador com cheiro de leite, aquele pirralho.
Lu XingCi o encarou. No instante em que a palavra “leite” saiu de sua boca, Duan JiaYan não conseguiu conter uma risada.
Por mais que zombasse dos outros, ele próprio não era lá muito maduro.
— Duan JiaYan — Lu XingCi hesitou por um momento, mas decidiu alertá-lo. — Não deixe que outros sintam seu cheiro.
Duan JiaYan ouviu, mas não levou as palavras a sério.
O segurança da Yi Zhong o reconheceu, e mesmo com as aulas ainda em andamento, abriu o portão para ele. Duan JiaYan pegou um ônibus e foi direto ao Hospital Central.
Não queria perder tempo em filas, então registrou o caso como emergência. Felizmente, por ser um dia de semana em horário pouco movimentado, o atendimento foi rápido.
A médica que o chamou ouviu com atenção enquanto ele explicava, de forma sucinta, o que acontecera. Após questioná-lo sobre idade e outros detalhes de saúde, ela perguntou:
— Como você descobriu que pode ser Ômega?
— Um colega sentiu meu cheiro.
A mão da médica sobre o mouse parou por um instante.
— Um Alfa?
Duan JiaYan confirmou com um aceno.
— Então esse colega deve ser uma pessoa de confiança — comentou ela, enquanto digitava algo. — Vá pagar o exame, depois faremos a avaliação completa.
Pensando no que Lu XingCi dissera antes, Duan JiaYan sentiu algo estranho na boca do estômago. Ao sair do consultório, pegou o celular e procurou o contato de Shen ChiLie.
Shen ChiLie e Song Yi eram amigos de infância — os três cresceram juntos, inseparáveis. No ensino médio, Shen ChiLie fora para outra turma. Ele era Alfa, e Song Yi costumava brincar que, juntos, os três formavam um verdadeiro trio ABO: Alfa, Beta, Ômega.
Duan JiaYan digitou rapidamente:
[Se um Ômega pedisse para você cheirar ele, como você se sentiria?]
Shen ChiLie provavelmente estava entediado com o celular em mãos, pois a resposta veio quase instantaneamente:
[Me sentiria o cara mais sortudo do mundo.]
A resposta soou estranha. Duan JiaYan enviou uma sequência de pontos de interrogação. Quando leu a próxima mensagem, sentiu o cérebro ferver.
[Um Ômega deixando um Alfa cheirar suas glândulas… que outro sentido isso poderia ter?]
[Não é sedução pura e simples?]
“…”
Duan JiaYan ficou paralisado em frente à máquina de autoatendimento, sentindo o rosto queimar. Quando finalmente se moveu, soltou um palavrão baixinho, envergonhado.
Naquela noite, recebeu o resultado dos exames.
Segundo os laudos, os hormônios Ômega em seu organismo já ultrapassavam a média populacional — e ainda apresentavam tendência de aumento. Ele era, sem sombra de dúvida, um Ômega recém-apresentado.
A médica confidenciou que era a primeira vez que via alguém apresentar-se naquela idade. Observou a miríade de emoções que atravessou o rosto bonito do garoto — choque, negação, resignação. Quando ele finalmente se recompôs, ela instruiu-o com cuidado sobre os cuidados necessários, prescrevendo inibidores e bloqueadores de feromônios.
Lembrou-o também de atualizar seus dados no registro governamental, mudando a classificação de Beta para Ômega.
Ao chegar em casa, Duan JiaYan encontrou Fu Yuan apressada, com o telefone grudado no ouvido.
— Certo, eu vou logo — ela disse, a voz normalmente serena trêmulo de ansiedade. — Estou indo.
— Mãe — chamou Duan JiaYan. — Já é tarde, você está saindo?
— Xiao Yun está no hospital de novo — respondeu Fu Yuan. — O tio He já está com ele. O corpo daquela criança nunca foi forte, mas o médico disse que, se passar dos dez anos, a condição melhora. Se tiver um tempo, visita-o… ele gosta muito de você…
Duan JiaYan apenas respondeu com um som de confirmação.
Fu Yuan continuou a andar de um lado para o outro, só percebendo depois de alguns segundos que o filho deveria estar na escola, na auto-revisão noturna.
— Por que você voltou tão cedo?
— Fiz uma avaliação médica.
Ele entregou o laudo. Fu Yuan olhou para os resultados, e seus olhos se arregalaram de incredulidade.
— Ah Ye, você… — ela hesitou. — Está bem? Está se adaptando? Como está se sentindo com tudo isso?
Ah Ye era o apelido carinhoso que Fu Yuan lhe dera quando ele era pequeno — afetuoso, quase infantil. A enxurrada de perguntas, somada ao olhar preocupado no rosto da mãe, fez os cantos da boca de Duan JiaYan se curvarem num leve sorriso.
— Estou bem — tranquilizou-a. — Não há muita diferença entre Ômega e Beta, na verdade.
As sobrancelhas de Fu Yuan permaneceram franzidas. Ela sempre pensara que, com a beleza e o temperamento afiado do filho, ser Beta não o prejudicaria em nada. Quem diria que ele era um desabrochar tardio — um Ômega escondido o tempo todo.
— Contanto que você não se importe, tudo bem — disse ela. — Precisamos atualizar seus documentos. Acho que tenho tempo na semana que vem…
O telefone tocou novamente. A voz do outro lado parecia apressá-la, e Fu Yuan parecia dividida. Duan JiaYan, percebendo seu dilema, interveio:
— Não precisa. Eu arrumo um tempo para ir sozinho, ou peço para o Song Yi me acompanhar. Vai para o hospital.
Fu Yuan assentiu, calçando os sapatos às pressas. Duan JiaYan perguntou, forçando uma casualidade que não sentia:
— Agora que o tio He e o He YunShen estão morando na Cidade de Ning, você ainda vai se mudar para ficar com eles?
Fu Yuan respondeu distraidamente, enquanto pegava as chaves:
— O tio He comprou um apartamento novo em Xin Huai, bem perto da Yi Zhong. Podemos nos mudar todos juntos em um mês, o que acha?
Duan JiaYan congelou.
— Ah Ye, durma cedo — disse Fu Yuan, abrindo a porta. — Talvez eu não volte hoje à noite. Não esqueça de programar o alarme. Não se atrase amanhã.
Quando a porta se fechou, Duan JiaYan ficou parado no silêncio da casa vazia, encarando a madeira fria.
— …Mas eu não quero morar com eles — murmurou, tão baixo que quase foi engolido pelo eco do ambiente. — Eu só quero morar com você.
A voz soou solitária na vasta casa deserta.
Talvez por ter acabado de apresentar-se, Duan JiaYan não conseguiu dormir direito naquela noite. Esqueceu-se de programar o alarme e acabou perdendo duas aulas na manhã seguinte.
Quando chegou à escola, a maior parte da aula já havia passado. Mal sentou-se quando Song Yi surgiu ao seu lado, com ar de quem trazia notícias bombásticas.
— Irmão, aconteceu uma parada séria — Song Yi guardou o celular, que raramente largava, e encarou Duan JiaYan. — Não sei o que o Du XuChen tomou, mas ele está espalhando que viu o Lu XingCi “brincando” com um Ômega ontem. Diz que o Ômega deve ser suspeito, e que o Lu XingCi se “forçou” sobre ele. Se for verdade, isso é crime grave…
Na sociedade atual, a proporção entre os três sexos ABO era de aproximadamente 3:6:1. Ômegas eram naturalmente raros, e por isso leis rigorosas protegiam-nos contra qualquer forma de violência ou coerção.
A sonolência de Duan JiaYan evaporou instantaneamente. Levantando os olhos, notou que a carteira de Lu XingCi estava vazia.
— O Lu XingCi não te contou nada? — perguntou a Song Yi.
— Me contar o quê?
A expressão perdida do amigo confirmou: Song Yi não sabia que seus próprios bloqueadores de leite haviam sido usados por Duan JiaYan no banheiro na véspera. Pensando melhor, ele percebeu que, na pressa de ir ao hospital, não combinara com Lu XingCi o que poderia ou não ser revelado sobre sua condição.
E Lu XingCi, por sua própria iniciativa, não contara a ninguém.
Isso contava como… proteção?
— Onde ele está?
— Não faço ideia. Acho que saiu.
Duan JiaYan grunhiu em confirmação, levantou-se e foi em direção à aula de Educação Física.
A Turma Dez ficava no corredor mais à esquerda; a aula de esportes, na extrema direita. Duan JiaYan foi direto à porta dos fundos.
Era ali que Du XuChen costumava sentar. Mal entrou, já ouvia sua voz espalhafatosa, provocando os colegas.
— O Lu XingCi fez uma burrada dessa vez. Ainda teve coragem de fazer isso na escola. Mesmo que a família dele o proteja, não vai sair impune — Du XuChen se virou para uma aluna próxima. — Vocês, Ômegas, têm aquele fórum, né? O das escolas principais da Cidade de Ning. Por que não postam isso lá?
A garota hesitou. Na noite anterior, Du XuChen a bombardeara com mensagens sobre o suposto incidente. Naquela manhã, ela o vira apagando contatos do celular, como se tivesse medo de ser descoberto. Não querendo se envolver, respondeu de forma evasiva:
— Vamos esperar. Isso ainda não está sendo investigado?
— Investigado o quê? Todo mundo sabe que ele trancou alguém no banheiro com ele. O professor até disse que encontrou resquícios de feromônios Ômega lá — Du XuChen estalou a língua. — Mas não dá pra colocar toda a culpa no Lu XingCi. Aquele Ômega é obsceno demais. Nem usava inibidores nem bloqueadores. Não tava basicamente pedindo pra…
A garota franziu a testa, incomodada:
— Às vezes é difícil para um Ômega controlar os feromônios. É assim que vocês pensam?
Du XuChen, percebendo que a irritara, tentou se redimir:
— Não, não foi isso que eu quis dizer. Existem Ômegas e Ômegas. Você e aquele cara não são iguais. O tipo dele…
Gesticulou com desdém, sorrindo com malícia:
— Ele tava basicamente pedindo pra ser fodido.
No instante em que as palavras saíram de sua boca, a porta dos fundos da sala voou aberta com um chute violento.
Du XuChen estava sentado ao lado da porta e foi atingido em cheio, cambaleando da cadeira, quase caindo no chão. Girou-se, pronto para xingar qualquer idiota que ousasse abrir uma porta daquele jeito, quando viu Duan JiaYan parado na entrada.
Duan JiaYan o agarrou pela gola e puxou com força, arrastando-o para fora da sala. Deixando de lado o fato de que Lu XingCi era um Alfa fisicamente superior, era humilhante ser dominado assim por um Beta — especialmente na frente de tantas testemunhas.
Du XuChen se debatia, e Duan JiaYan o soltou. No instante em que tocou o chão, Du XuChen gritou:
— Que porra, Duan JiaYan! Você enlouqueceu?
Duan JiaYan pegou uma cadeira do fundo da sala e a arremessou contra a cabeça de Du XuChen. O impacto foi brutal. Du XuChen ficou atordoado, sentindo um líquido quente escorrer pelo rosto. Um segundo depois, a dor chegou — e só então ele percebeu que estava sangrando.
A sala caiu em silêncio chocado.
Naquele momento, Lu XingCi saía da sala dos professores e testemunhou a cena. Duan JiaYan jogou a cadeira de lado, encarando Du XuChen com uma fúria gelada. Havia algo perigoso em seu olhar — um sorriso que não alcançava os olhos, uma expressão de pura ameaça contida.
— Eu sou o Ômega que você disse estar pedindo pra ser fodido — Duan JiaYan cravou o olhar no rosto atordoado de Du XuChen, a voz baixa, cortante, mortal. — Diga me, eu pareço alguém que está esperando pra ser fodido?
Continua…